
Paulo pediu aos cristãos romanos, em razão das muitas misericórdias de Deus, que apresentassem seus corpos como sacrifício vivo, santo e agradável, o que é um culto racional (Romanos 12:1). O que quis dizer com isso, exatamente?
O corpo, na teologia paulina, é o ambiente da vida. A vida se realiza pelo corpo. A morte é morte do corpo e a ressurreição é ressurreição do corpo. A glória é a transformação do corpo corruptível em corpo incorruptível. A igreja é o corpo de Cristo, pelo qual vive e atua neste mundo depois de sua ascensão.
Rubem Alves escreveu:
“Existirá algum lugar onde nos encontramos fora de nós mesmos, estando assim livres do radical corpocentrismo a que nossa carne nos obriga? Era esta a pergunta com que Kierkegaard martelava Hegel, pedindo-lhe reconhecer o ponto de onde brota todo pensamento e toda palavra: o eu, este pequeno e insignificante eu, que deseja ser feliz, com paixão infinita... Partir do corpo. Não é o corpo o centro absoluto de tudo, o sol em torno do qual gira o nosso mundo?” (Variações sobre a vida e a morte, pp. 27 e 28).
Oferecer o corpo significa oferecer a vida em todas as suas dimensões e possibilidades. Quem tem um corpo tem o que entregar. E é o suficiente.
Mas não se trata de uma entrega qualquer. O corpo deve ser vivo. Sacrifício vivo, ao contrário das ofertas de animais mortos da velha aliança. Não é o martírio que Deus deseja (embora, em algum momento, possa ser ele obrigatório para o verdadeiro cristão), mas a vida que dedica-se, apresenta-se, consagra-se. Padre Vieira escreveu que “o mesmo é dar a vida pela fé de Deus (martírio) que dar a vida pelo serviço de Deus (ministério).” Viver para Deus é a exigência das misericórdias.
O corpo deve ser santo. Sacrifício santo, separado, exclusivo. O corpo que se oferece agora pertence a Deus. Não pode ser instrumento de pecado, maldade, injustiças. Sua inclinação não será mais para o prazer e a auto-satisfação, mas para o testemunho e a adoração. Morreu para si mesmo, uma vez que é um sacrifício. Mas está vivo, posto que serve unicamente a Deus. Como desafiou Spurgeon: "Preparem-se, meus jovens amigos, para se tornarem cada vez mais fracos; preparem-se para mergulhar a níveis cada vez mais baixos de auto-estima; preparem-se para a auto-aniquilação; e orem para que Deus apresse este processo".
O corpo deve ser sacrifício agradável. Deve atender a vontade daquele que o recebe, sob pena de tornar-se desprezível. Foi o que aconteceu com Caim, cuja oferta o Senhor reprovou. Mas aceitava a de Abel com prazer. Por quê? Essa sua soberana insistência por sondar os corações. E a sugestão que deu a Caim: “se procederes bem, é certo que serás aceito; mas se procederes mal, o pecado jaz à porta”
Por isso, o sacrifício é também um culto racional. Chama à reflexão, à consciência, à decisão. Não se impõe sobre o desavisado nem se baseia em alienações de qualquer espécie. É inteligente, sóbrio, lúcido e sem reservas. Sabe que crer é também pensar, como afirmou John Stott. Pensar para a glória de Deus.