
Ajudar pessoas é um privilégio e, sobretudo para o cristão, uma obrigação. Pessoas precisam de ajuda. A vida reserva situações de dificuldade e provação que exigem a ajuda mútua e o exercício da solidariedade. O nosso Deus é um Deus que socorre e ajuda em todo tempo e nas mais variadas circunstâncias. Por isso, ninguém está isento de responsabilidade com relação ao seu próximo, especialmente o necessitado.
No entanto, é preciso distinguir entre o que ajuda e o que atrapalha; entre o que socorre e o que perpetua a necessidade; entre o que liberta e o que cria relações de dependência; entre o que podemos chamar de ajuda espiritual, movida por fé e amor a Deus, e o que chamamos ajuda meramente política, movida por orgulho, interesses e desejo de autoafirmação. Esta parece ajuda, mas é armadilha; aquela, vez ou outra, não parece ajuda, mas é bênção e orienta pelo caminho da transformação e da autonomia.
A ajuda meramente política tem suas características: considera o pedido (o que essa pessoa quer de mim?), fundamenta-se em estruturas de poder (como posso atendê-la?), objetiva a satisfação de quem pede (se eu não a atender ficará chateada comigo!) e estabelece relações de reciprocidade e compensação (amanhã poderei precisar dessa pessoa!). É incapaz de discernir entre necessidade e desejo, solução e vaidade. Só se concretiza quando diz “sim”. Funciona no curto-prazo, mas, normalmente, gera transtornos no longo-prazo.
A ajuda espiritual, por sua vez, tem outras características: considera a pessoa (quem é o que me pede? Qual sua história? Como chegou até aqui?), fundamenta-se no amor (o poder, em última instância, é sempre de Deus!), objetiva a glória de Cristo (importa que Ele cresça e que eu diminua!), trabalha pelo avanço do Reino (Deus é soberano!), e orienta para a liberdade dos filhos de Deus (Deus cuidará de mim sempre que eu precisar!). Sabe a diferença entre desejo e necessidade. É ajuda tanto no “sim” quanto no “não”. Produz frutos para a eternidade.
Jesus é nosso maior exemplo de ajuda espiritual sem preocupações meramente políticas ou sociais. Recebeu as multidões, curou enfermos, libertou oprimidos, consolou aflitos, mas também negou pedidos (como quando foi solicitado para arbitrar entre irmãos que disputavam uma herança), censurou motivações (quando a mãe de dois de seus discípulos pediu que pudessem assentar-se à sua direita e à sua esquerda, no reino) e fugiu dos que queriam torná-lo rei. Não tinha qualquer compromisso com as fantasias populares, senão com a vontade do Pai.
Denunciou a hipocrisia das lideranças políticas e religiosas de sua época, protegidas pelas estruturas de poder e distanciadas da realidade do povo. Condenou suas festas, cerimônias e grandes construções, instrumentalizadas para distrair e perpetuar pobreza e ignorância. Desmascarou suas motivações pecaminosas, acusando-as de dar esmolas com trombetas e alardes, visando chamar a atenção e propagandear a própria imagem. Foi crucificado por elas, mas ressuscitado e exaltado pelo Espírito de Deus. Recebeu um nome acima de todo nome...
A igreja precisa aprender com Jesus e seguir em seus passos. Precisa ter compaixão pelos sofridos, amor pelos necessitados e disposição para servir ao próximo, mas também discernimento espiritual, liberdade de autoestima e firmeza de decisão. Precisa saber o valor de um “sim” e o valor de um “não”; cada um tem sua hora e seu lugar. E o que passa disso vem do maligno...