O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados (Rm 8:16-17)
Compreender os aspectos de nossa identidade é tarefa difícil, especialmente numa sociedade em que o individualismo (fenômeno psicológico que toma do sujeito sua capacidade de perceber-se como ser em relacionamento) e a massificação (fenômeno social que retira a beleza da individualidade) dificultam o entendimento de nós mesmos e do nosso papel no mundo.
Identidade e realidade andam juntas. A existência de uma realidade espiritual conduz-nos à pergunta sobre nossa identidade espiritual. Quem somos diante de Deus? Quem podemos ser nele? Como nos vê? O que nos diz sua Palavra?
Nossa identidade espiritual foi tema das reflexões do apóstolo Paulo em sua carta aos Romanos, especialmente no oitavo capítulo. Ele relacionou a identidade dos crentes às conquistas e privilégios que, em Cristo (seu sacrifício, ressurreição e glorificação), lhes foram garantidos. Em sua argumentação, dois termos aparecem ligados: filhos e herdeiros (v. 17).
O primeiro aspecto é a filiação divina. Em Jesus, pessoas de todas as raças e culturas recebem nova e extraordinária oportunidade de desfrutar a paternidade de Deus. Surge o conceito de adoção. Criaturas de Deus, jamais fomos filhos por natureza; essa identidade nos foi dada a partir de nossa identificação com Cristo (8:15 e 23). Por ele recebemos o Espírito, que testifica com o nosso espírito que somos filhos do Pai celestial (8:16). Pelo Espírito clamamos: Aba, Pai
A filiação divina é a razão pela qual podemos esperar na proteção e na provisão de Deus. É a certeza do auxílio do Espírito em nossas fraquezas, ainda que não saibamos orar como convém (8:26). É a certeza que Deus age em todas as coisas para o bem dos que o amam (8:28); maior e mais forte motivação para enfrentar as lutas e adversidades do caminho. Temos um Pai amoroso e capaz de nos dar vitória. Nenhuma condenação ou acusação devem pesar sobre nós (8:1 e 31).
Além da filiação, outro aspecto da identidade cristã é a herança futura. Em Jesus, somos filhos e também herdeiros. Herança é esperança, pois somos filhos do Deus vivo, criador de todas as coisas e dono de tudo que existe. É o próprio Espírito quem nos garante a esperança, gemendo em nosso interior, solidarizando-se em nossa fraqueza e apontando-nos o futuro de Deus: na esperança fomos salvos (8:23-25).
A certeza da herança futura é também nosso anseio pela manifestação da glória eterna, razão pela qual podemos afirmar que os sofrimentos do presente não podem ser comparados ao que para nós está preparado (8:18). A própria criação, afetada pelo pecado humano, também terá em Deus sua restauração total (8:20-22). Nossa filiação se manifestará em plenitude, graça, e estaremos com o Pai para todo o sempre.
Filiação e herança, contudo, não excluem sofrimento. Engana-se quem supõe que significam certa imunidade contra as dores dos mortais. É uma situação paradoxal: Se com ele sofremos, com ele seremos glorificados (Rm 8: 17). Sofremos pelo drama da implantação do reino numa realidade que lhe é contrária. Sofremos pela perseguição que está reservada aos discípulos. Sofremos por compaixão para com um mundo em conflito. Sofremos por sermos corruptíveis.
Sofremos, mas não desanimamos. A esperança da herança assegura que com ele seremos glorificados. O sofrimento não anula nossa identidade, reforça-a. Sofremos com ele porque, assim, com ele reinaremos. O sofrimento faz aumentar nossa convicção de filiação. Não é drama, mas caminho de exaltação e identificação definitiva com o Senhor da glória. Nele somos exatamente quem Deus quer que sejamos. Tudo que podemos ser. Tudo que jamais sonhamos ser...