
Mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra (Atos 1:8).
A tentação do poder é um dos grandes desafios da vida. Diante dele, o ser humano costuma fracassar. Nossas relações de poder geralmente são injustas e evidenciam nosso caráter corrompido. Pessoas simples e bem intencionadas podem transformar-se em cruéis tiranas quando contempladas com poder superior ao que estavam habituadas a administrar. O poder atrai, seduz e deslumbra na mesma medida em que corrompe, separa e destrói. Com ele e por meio dele um sem número de vidas humanas são oprimidas e privadas de sua dignidade.
O poder não é, contudo, um problema em si mesmo. Pelo contrário, é até necessário, para que as relações humanas e sociais sejam corretamente estabelecidas e viabilizadas. É óbvio que numa sociedade ideal – como a que Deus planejara quando da criação do homem e da mulher – o poder não seria, de fato, necessário. Mas, num mundo contaminado pelo pecado e pelo distanciamento do Criador, ele passa a fazer parte da própria orientação de Deus para o convívio (veja-se, por exemplo, a palavra dirigida a Noé em Gn 9:6). Enfim, o poder é necessário, conquanto provoque reações e sentimentos com os quais não desejamos conviver.
Um dos mecanismos de poder criados e desenvolvidos pela raça humana no decorrer de nossa história é o dinheiro. Com ele nos tornamos capazes de realizar coisas que outras pessoas, privadas de dinheiro, não podem realizar. Com ele adquirimos bens de consumo indisponíveis à grande maioria. Com ele nos impomos sobre os outros, os quais, sem ele, ficam sujeitos aos caprichos e desejos de quem os puder pagar. Com ele nos sentimos diferentes, superiores, distraídos das mazelas e fraquezas que nos afligem a todos.
Outro mecanismo de poder, extremamente presente e atuante em nossa sociedade, é o conhecimento. É tão importante, que quantias enormes de dinheiro são disponibilizadas em troca de seus préstimos inestimáveis. A pós-modernidade é a era da informação. Querer não é poder; saber o é. O bem mais precioso que um país, uma grande empresa ou um profissional talentoso podem possuir é o domínio do conhecimento, da ciência, da tecnologia, com o qual superam adversários e concorrentes. E são muito bem pagos por isso.
O poder e as verdades a seu respeito são tratados no Novo Testamento de forma bastante profunda e diametralmente oposta àquela com que o mundo moderno os trata. A palavra traduzida por poder é uma palavra comum, “dynamis”, que literalmente significa “força, energia, capacidade”. É uma potência ou habilidade especiais para a realização de feitos extraordinários. Os milagres de Jesus e de seus discípulos na implantação do Reino de Deus são chamados “dynameis”, isto é, “atos poderosos”. E há também “poderes” que se estabelecem tanto nas esferas dos relacionamentos humanos como no cosmos, em oposição ao poder de Deus (Rm 8:38).
O diabo tem poder. Suas “habilidades” estão voltadas contra o ser humano, para roubar, matar e destruir (Jo 10:10). Nas palavras de Pedro: Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda ao redor, rugindo como leão, procurando a quem possa tragar (1 Pe 5:8). O diabo é capaz de seduzir (Ap 20:10), de armar ciladas (Ef 6:11), de prender em laços (1 Tm 3:7; 2 Tm 2:26), de interferir na vida humana, gerando sofrimentos e tribulações (Ap 2:10), e até mesmo de matar (Hb 2:14). Por estas razões não lhe devemos dar lugar (Ef 4:27).